Fim de escola rural em Linhares gera impasse entre camponeses e Sedu |
Fonte: Século Diário
Publicado originalmente em 22/02/210
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O fechamento da Escola Estadual de Ensino Fundamental Palhal, na área rural de Linhares, norte do Estado, está gerando impasse no município. O Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) afirma que as famílias foram impedidas de matricular suas crianças este ano, sem nenhum aviso prévio, apenas com a informação de que as crianças deveriam ser transferidas para uma nova escola, a nove quilômetros de distância. Já a Superintendência da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) garante que os alunos já podem estudar.
Entretanto, a comunidade resiste. Os moradores afirmam que o fim da escola estadual vai impedir o acompanhamento dos pais na freqüência escolar e mudar a rotina das famílias. Alegam, ainda, um risco ainda mais grave: o êxodo rural.
“Sem a escola, nossa comunidade vai virar um deserto”, enfatizou Paulo Soeiro de Freitas, pai de um aluno. As famílias temem que a transferência das crianças irá aproximá-las de uma nova realidade, estimulando o êxodo rural não só dos alunos, mas também de seus familiares.
Segundo o MPA, em reunião na última quinta-feira (18), com o superintendente da Sedu em Linhares, Alexandre Segovia, as famílias que se recusaram a matricular seus filhos na nova escola chegaram a sofrer ameaças de ação judicial.
Já o superintendente Alexandre Segovia alega que a escola em questão foi interditada, por estar sucateada. E, que, diante da negativa da comunidade em transferir as crianças para a nova escola - que ficaria a sete, e não nove quilômetros da comunidade rural -, um novo local foi proposto para a instalação da unidade.
“Meu compromisso é com a educação destas crianças. Em 2009 fizemos a inspeção da escola e constatamos uma situação precária, prova disso, foi o índice de retenção das crianças, de quase 40%. Por isso, a escola foi fechada e providenciamos transporte para a transferência destes alunos. Entretanto, as famílias não aceitaram. Propomos que um novo local fosse encontrado pela comunidade. Isso foi feito e o local já está funcionando”, garantiu.
Mas o Movimento dos Pequenos Agricultores aponta que a história é outra. As portas da igreja foram abertas para que os alunos não perdessem aula, enquanto não é solucionado o impasse entre as partes. Representantes do MPA afirmam que a comunidade até se responsabilizou em arrecadar dinheiro e formar um mutirão para reformar a antiga escola, e que um termo de compromisso chegou a ser apresentado aos moradores, para que as famílias reformassem a antiga escola, em 60 dias. “É papel do Estado garantir a manutenção da escola. Não nosso”, ressaltou Elias Alves, da direção estadual do MPA.
Entre as famílias, o sentimento é de que se os alunos forem para uma escola distante, a comunidade será desintegrada. “Queremos manter viva a nossa história e manter nossas crianças no campo. Tirar a escola daqui é tirar nossa referência”, pontuou Elias.
Já a Dona Serseníllia, de 55 anos, ressalta que além dela, seus filhos e netos estudaram na escola agrícola e que é seu desejo que seus bisnetos sigam o mesmo caminho, para que a família continue no campo, unida.
O ensino rural é considerado importante para estas famílias por trabalhar a realidade da vida no campo, incentivando a permanência das crianças na região e preparando os estudantes para as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), quando o aluno divide seu tempo entre a escola e a sua casa, o que é denominado Pedagogia de Alternância.
As EFAs funcionam em parceria entre a Secretaria de Estado da Educação (Sedu), prefeituras, entidades privadas e as famílias dos alunos. Entre as práticas rurais, as EFAs ensinam a agroecologia, através de atividades teóricas e práticas. Cerca de 15 outras escolas rurais aplicam esse método no Espírito Santo, no ensino fundamental e médio. Entre elas, as escolas dos assentamentos do Movimento Sem Terra (MST).